"O mel nunca é tão doce sem o fel, e é preciso saber o que é o fel, para se apreciar o mel." (Brian, amigo de David no filme Vanilla Sky)
Às vezes, um sabor permanece em nós sem que saibamos reconhecê-lo. Acostumamos o paladar, seguimos distraídos e até desejamos alguma coisa diferente. Então vem o amargo, ocupa a boca inteira, e só agora sabemos dizer o que havia antes. Você já experimentou algo tão desagradável que ficou procurando uma doçura que não estava ali? Como é que a cantora Pitty costuma mesmo cantar? E o doce, cadê? Pois bem, caro leitor, talvez houvesse mel antes e nós estivéssemos ocupados demais procurando o que faltava. É depois de provar o fel que aprendemos a aquilatar aquela doçura. Se você algum dia melancolicamente perdeu um amor e só depois reconheceu o quanto era doce estar com ele, talvez saiba a estranheza de desejar outra vez um instante que, enquanto durava, parecia tão comum.
Você sabe o que é o fel? Simbolicamente, ele representa o amargo, aquilo que gostaríamos de não ter provado. Mas o fel também existe dentro do nosso estupendo corpo humano, sem precisar que ninguém nos cause uma desilusão. É o nome popular da bile, um líquido produzido pelo fígado e armazenado na vesícula biliar, de onde é liberado para o intestino delgado, auxiliando na digestão das gorduras. Veja só: esse amargo tem sua serventia. No corpo, sabemos o que ele ajuda a digerir; fora dele, há coisas que engolimos e demoramos muito mais para descobrir o que fazer com elas.
No maravilhoso filme Vanilla Sky, David Aames parece conhecer muito bem o mel, embora talvez nunca tenha parado para lhe perguntar o sabor. Interpretado pelo talentoso Tom Cruise, é um playboyzão podre de rico, único herdeiro de um mega-grupo de comunicações. Além de boa pinta e de dirigir uma Ferrari GTO 250, mora no Dakota Building, decora a sala com uma guitarra quebrada, é fã de Radiohead e pinta ele mesmo sua prancha de Snowboard. Sua festa de aniversário tem gente como Spielberg, e, volta e meia, ele resolve dar um rolê pelo apartamento com alguma privilegiada para mostrar um Monet pendurado em outro cômodo. Há sempre alguma coisa para impressionar, caso sua presença não seja suficiente. É nessa festa que David se apaixona à primeira vista por Sophia, personagem de Penélope Cruz. Mas há um detalhe que talvez parecesse pequeno para ele: ela chegou acompanhada de Brian, seu melhor amigo, interpretado por Jason Lee, que estava caidinho por ela. Enquanto David descobria mais uma doçura entre tantas, Brian via sua esperança mudar de direção sem que ninguém lhe perguntasse se estava preparado. Ali, na mesma festa, o mel de um começava a deixar um gosto amargo na boca do outro.
Brian era um cara pouco afortunado comparado a David, principalmente quando o assunto envolvia “una bela dona”. Era difícil impressionar uma garota depois que ela conhecia seu melhor amigo. Imagino o desconforto de perceber que a conversa ia bem até alguém olhar por cima do seu ombro. Mas Brian tinha um diferencial: sabia dar valor a um amor e não queria desperdiçar a chance de vivê-lo. Pelo menos era assim que eu o enxergava. Isso, infelizmente, não obrigava Sophia a escolhê-lo. Podemos ter um sentimento sincero, cuidar dele com todas as nossas forças e ainda descobrir que a outra pessoa não deseja o mesmo. Brian viu aquela possibilidade se afastar e encontrar lugar justamente nos braços do amigo, alguém com quem talvez quisesse conversar sobre sua decepção, não dividi-la dessa maneira. E o que é pior, ele também nem era o prestigioso personagem principal do filme. Até para sofrer havia alguém recebendo mais atenção do que ele.
David Aames não sabia o que era o fel, mas acabou conhecendo seu sabor. O homem que tinha beleza, riqueza e carisma se viu diante de uma recusa que sua fortuna não conseguia resolver. Depois de um acidente de carro, continuou rico, mas perdeu a beleza e já não encontrou nos amigos a mesma receptividade de antes. Sophia também se afastou, e aquele que havia despertado o amor que Brian desejava passou a conhecer sua própria falta. Como aceitar que o mundo continuasse existindo, com suas festas, seus quadros e suas belas mulheres, sem lhe oferecer o lugar de sempre? David já não conseguia ser o cara legal; estava ocupado demais tentando lidar com a própria tragédia. Talvez doesse também não saber quanto do encanto anterior lhe pertencia e quanto dependia do rosto com que era recebido. O dinheiro permanecia, o apartamento também, mas ele já não se sentia em casa dentro de si. Restou-lhe aprender a lição: “O mel nunca é tão doce sem o fel”. E agora havia amargo suficiente para fazê-lo recordar cada doçura que antes parecia tão natural.
“O mel nunca é tão doce sem o fel, e é preciso saber o que é o fel, para se apreciar o mel”. Esta é uma frase que me faz parar e refletir em muita coisa. Como dar valor ao carro sem nunca ter andado de ônibus? Como dar valor ao dinheiro sem nunca ter faltado um tostão? Como dar valor ao conforto sem nunca ter dormido no chão? Como dar valor à saúde sem nunca ter ficado doente? Como dar valor aos amigos sem nunca ter ficado sozinho? E, principalmente, como dar valor ao amor sem nunca ter sofrido por ele? Faço essas perguntas e uma delas acaba voltando para mim de outro jeito: será que precisamos mesmo de todas essas faltas para reconhecer o que temos? Gostaria de acreditar que podemos apreciar uma doçura enquanto ela ainda está na boca, sem esperar pelo amargo que virá depois. Mas somos distraídos, caro leitor. Acostumamos com o conforto, adiamos uma conversa, recebemos um carinho como se amanhã houvesse outro à nossa espera. Depois, quando falta, nossa memória se torna de uma delicadeza impressionante: recorda o gesto, a voz, até uma tarde que parecia não ter importância. Talvez conhecer o fel nos ensine a apreciar o mel. Só me pergunto por que tantas vezes deixamos para aprender quando já não podemos provar outra vez.