Você vive recebendo elogios exagerados de alguma pessoa? Vai ao espelho e percebe que não é bem tudo aquilo que disseram? Olha de novo, ajeita o cabelo, procura um ângulo mais favorável e ainda fica na dúvida quanto à intenção do elogio? Você seria capaz de se desfazer da sua bela casa e do Ômega australiano só para descobrir se continuariam te elogiando com o mesmo entusiasmo? Afinal, é muito agradável ouvir certas coisas sobre nós mesmos, e nem sempre temos tanta pressa de descobrir se são verdade. Seu cachorro foi vacinado este ano? Aff, esquece essa última. Se as outras perguntas lhe pareceram familiares, comece a se preocupar um pouco – ou melhor, demais. Talvez você esteja enfrentando o Delicioso e Trágico Síndrome do Elogio.
Caro leitor, a maioria dos homens tem uma confissão a fazer: eles gostam de elogiar. Mas, graças a Deus, são elogios bem sacanas sinceros e conseguem controlar isso muito mal bem. Devem ter, cada um, uma auréola na cabeça. Às vezes, basta uma mulher interessante aparecer para que encontrem qualidades que até então ninguém havia percebido, incluindo a própria elogiada. O sorriso é encantador, o olhar é inesquecível, e a conversa, mesmo que tenha sido apenas sobre a previsão do tempo, revela uma inteligência admirável. Tudo isso descoberto em poucos minutos. É uma capacidade de observação comovente, caro leitor. Principalmente quando eles garantem que não querem nada em troca.
Uma pessoa que eu conheço, cujo nome é Thamires, me disse, faz umas duas semanas, que elogiar demais pode até estragar o começo de um relacionamento. Quando já estamos acostumados com alguém, apreciamos os elogios que recebemos porque reconhecemos neles uma sinceridade construída na convivência. A pessoa já nos viu em outros dias, com outras caras, e ainda encontra alguma coisa boa para dizer. Mas o que pensar dos elogios de quem mal nos conhece? Pois é, mesmo que você, homem ou mulher, seja muito sincero no que diz, economize um pouco quando estiver conhecendo alguém. Às vezes, o elogio chega tão adiantado que a confiança ainda nem teve tempo de abrir a porta. Um amigo meu contou que, certa vez, uma garota na rua o chamou de gay gato. Ele foi ao espelho, procurou, procurou de novo, olhou dos lados e chegou a procurar até atrás do espelho, mas disse que não viu gato nenhum. A investigação foi minuciosa; faltou apenas chamar o bichano pelo nome para ver se aparecia. E eu fico me perguntando: depois que ela o conhecesse melhor, será que continuaria chamando-o de gato? Talvez sim. Mas aí ele teria pelo menos alguma razão para acreditar que ela estava falando dele.
Nestas últimas semanas (dezembro de 2010), conheci alguém em especial, mas ainda é cedo para revelar o nome. Já posso, porém, lhes dar uma pista bem interessante para que descubram como ela é. Pois é, caros leitores, essa pessoa tem orelha. Sim, ela tem orelha e, por enquanto, é a única informação que posso oferecer. Compreendo que a pista diminui muito pouco o número de suspeitas, mas conto com a compreensão de vocês. Essa pessoa que tem orelha me elogia um pouco demais e, como se estivesse me passando um trago de ervas, acabei pegando o vício e comecei a elogiar também. Vejam a situação: eu aqui recomendando economia e, na primeira oportunidade, distribuindo elogios como se precisasse acabar com o estoque. Sei que preciso me controlar, pois mal a conheço. O elogio pode até ser sincero, mas, quando vem em quantidade demais e com convivência de menos, fica difícil convencer alguém disso. E tudo o que mais quero é demonstrar meu interesse sincero por ela. No domingo passado, estávamos na webcam, e ela estava muito bem. Quase consegui controlar os elogios. É, como podem perceber, eu quase consegui. Logo em seguida, veio um turbilhão deles. Minha amiga Thamires me aconselhou a tomar bastante cuidado, porque a garota “da orelha” poderia achar que eu estava com outras intenções. E estava? Hoje a encontrei. Estava mais bonita do que na webcam, mas, milagrosamente e com muito esforço, reduzi os elogios em 30%. Os outros 70% escaparam, mas achei justo reconhecer meu progresso.
Uma coisa muito notável é o fato de o popular Orkut ser um prato escaldante de elogios. Nesse site de relacionamentos, basta alguém ver a foto quase pelada sensual de outra pessoa e achar que ela parece gostosa apresentável para pular algumas etapas da apresentação. Em vez de escrever nos recados “Oi, tudo bem?”, já começa com “Oi, amor, tudo bem?”. Outros vão além: “Oie, amore, senti sua falta”. Viu a pessoa apenas uma vez, numa foto do álbum, mas já está sofrendo com a ausência. É uma saudade de impressionar, principalmente pela pouca quantidade de lembranças necessárias para produzi-la. Depois vêm infindáveis cantadas mal cantadas, e o espaço de recados vai ficando cheio de uma intimidade que os dois ainda não tiveram tempo de viver. Enfim, não que seja errado elogiar, mas existem exageros que chegam antes da hora. Quando se conhecerem melhor, muitos daqueles elogios poderão se mostrar sinceros. Até lá, talvez valha começar pelo “oi” e esperar para descobrir se haverá mesmo alguma falta para sentir.
Enfim, se você enfrenta o Delicioso e Trágico Síndrome do Elogio, não se desespere, porque isso é simplesmente passageiro. Um dia você envelhece, fica feio(a), pobre e morre. Então não haverá mais com o que se preocupar.