Nas tardes de primavera do ano de 1994, eu vivia rabiscando, desenhando e imaginando como seria a garota dos meus sonhos. Tinha 14 anos. Entre os traços, alguém começava a morar no papel, embora eu ainda não soubesse lhe dar um rosto. Uma vez, escrevi um poema. O tempo levou a folha, mas deixou algumas palavras, como quem deixa uma porta entreaberta: "Que vontade tenho de abraçar e sentir seu ombro, rir e amar, por nossas vidas já terem um destino certo, só preciso te encontrar, sei que você está em algum lugar, princesa de um castelo de fadas". Hoje, tantos anos depois, há nesses versos alguma coisa da mulher que conheci. Naquelas tardes, porém, eu só tinha o poema e o espaço que ficava depois dele. Às vezes, me perguntava se alguém poderia atravessar aquela distância entre a palavra e a vida. Procurava entre as garotas do colégio, ao longo dos meus tempos de escola, mas nenhum rosto fazia aqueles versos repousarem. A primavera passou. Outras vieram. E eu continuava guardando um abraço para alguém que ainda estava em algum lugar.
Aos 18 anos, conheci uma pessoa que parecia trazer no rosto alguma coisa dos meus antigos sonhos. Desde os 14, alguém sem rosto demorava dentro de mim. Vieram outras primaveras, e aquele lugar continuou à espera. Por um instante, pensei que fosse ela. Mas não demorou muito até Dani perceber que não era a princesa do meu poema. Chegou até mim e perguntou: “Como você imagina sua princesa?”. Procurei entre as palavras o que tantas vezes havia procurado entre as pessoas. Princesas não são apenas pessoas bonitas, como todos imaginam. A minha teria mãos que soubessem encontrar minhas lágrimas e um sorriso que se abrisse ao ver o meu. Tomaria conta dos nossos sonhos, zelaria pelo amor que eu deixasse aos seus cuidados. Ao adormecer, levaria meu nome para dentro da noite; ao despertar, ainda o teria consigo. Também sonharia com o dia de nos encontrarmos. Teria um sorriso lindo, cativante, a felicidade e o olhar sincero de uma menina deslumbrante. Contaria as horas para me ver, e haveria um pouco de mim em cada uma delas. Inspiraria meus anseios, sem reclamar do que tinha ou do que a vida ainda não lhe dera. Seus olhos pousariam nos meus com paixão, e muitos abraços ardentes saciariam um pouco daquela sede antiga. “É alguém que esperarei encontrar, nem que seja até os meus últimos segundos.” As palavras chegaram ao fim. Dani estava diante de mim. Dentro, a princesa ainda guardava o rosto que eu não conseguia desenhar.
A belíssima primavera de 94 ainda me trouxe outra inspiração. O poema havia deixado alguém à espera, e eu precisava de mais páginas para que ela pudesse viver. Pensei em escrever um livro. Talvez o mais demorado de todos os tempos, pois, mesmo depois de 16 anos, ainda não terminei. Dei à minha princesa uma vida distante dos contos de fadas. Era uma garota do campo, ingênua e atrapalhada, que vivia como se o mundo não estivesse acontecendo ao seu redor. Era pobre e sonhava em ser rica. Não havia castelos nem reinos distantes; havia o mundo real e tudo aquilo que nele falta quando se deseja alguma coisa. Chamei-a de Amanda. Por algum motivo, sempre gostei desse nome. Hoje, se pudesse voltar àquelas páginas pela primeira vez, escolheria outro que aprendi a admirar mais. A pequena cidade onde Amanda morava começou a receber visitas de gente das grandes cidades. Entre elas, dois irmãos advogados, um homem e uma mulher. Ele seria o grande amor da vida dela. Mas, caros leitores, não esperem que eu conte agora o final dessa história. Há 16 anos, Amanda espera que eu termine de escrevê-la. Às vezes, eu me perguntava por que nunca chegava à última página. Talvez minha mão parasse onde a vida ainda não havia chegado. No livro, eu podia dar àquela garota um nome, uma casa, alguém para amar. Depois fechava as páginas, e alguma coisa dela continuava faltando aqui fora.
A princesa dos tempos modernos é aquela que, no jeito de dizer destes tempos, chamamos de emocional girl. Olha para o namorado, e alguma coisa nela já caminha até o altar. O vestido, o buquê, a marcha nupcial: tudo chega antes, embora ao redor ainda seja um dia qualquer. São garotas extremamente românticas, simples e emotivas, que guardam um lugar para a pessoa certa. Às vezes, passam por romances casuais, demoram onde imaginavam apenas passar e deixam um pouco de si em histórias que não ficam. Ainda assim, há nelas uma espera que sobrevive às despedidas. O rosto ao lado muda; aquele lugar, por dentro, continua pedindo alguém que permaneça.
Alguns meses atrás, Dani me escreveu um e-mail. Já não estávamos juntos, mas havia entre nós uma amizade que podia continuar atravessando os anos. No fim da mensagem, ela perguntou: “E aí, encontrou sua princesa?”. Eu estava muito atarefado e deixei a resposta para depois. O depois foi ficando longe, até que esqueci. A pergunta permaneceu ali, guardada entre os e-mails, enquanto a vida seguia sem esperar que eu a respondesse. Recentemente, fui vasculhar aquelas mensagens e encontrei a dela. As mesmas palavras. Eu já não era o mesmo diante delas. E tive um imenso prazer em escrever: “Sim, eu a encontrei!! Finalmente encontrei minha princesa!!”. Depois de tantos anos procurando, coube numa resposta aquilo que eu não havia conseguido terminar num livro.
Em meados de dezembro de 2010, tive a sensação de que alguma coisa começava a despertar. Meus sentimentos haviam passado tanto tempo no frio, sem encontrar a mulher que eu imaginava, que eu quase já não reconhecia seus movimentos. Então veio uma voz. Um jeito de falar comigo, de me ligar, de insistir em alcançar minha atenção. Aos poucos, aquilo que parecia quieto voltava à superfície, mas trazia uma claridade diferente. Seu nome era Bruna. Havia nela características daquela garota que eu sonhara aos 14 anos, e eu demorava a acreditar que alguém pudesse reunir, fora de mim, tantos pedaços do que eu guardava. Ela falava, e alguma coisa nos antigos versos respondia. Perguntei ao meu Deus por que precisava ser ela. Teria sido mais fácil se tivesse mais experiência de vida, uma idade mais apropriada para casar. Essas perguntas também estavam comigo quando eu ouvia sua voz. Mas era ela quem havia chegado, e eu permanecia entre o reconhecimento e o espanto, tentando compreender como duas épocas tão distantes podiam tocar o mesmo lugar dentro de mim. Até que uma coincidência me deixou diante daquela primavera outra vez. Bruna nasceu na primavera do ano de 1994.